"Roupas que eu jamais usaria"
"Roupas que eu jamais usaria"
Passeio com o Miguilim todos os dias. Nos mais cheios, duas vezes, quando estou com mais folga três. Considero os passeios da manhã longos - 40/ 50 min, passando por uma rua sem saída onde ele corre solto porque não entram carros; uma praça onde ele também corre solto e faz xixi em árvores, postes e em vários lugares da grama sem levantar a pata, como se fosse fêmea; e depois uma outra praça menor onde ele procura abacates caídos no chão. Na praça maior, ele cava o chão e fica com a parte dianteira do corpo pra baixo e o traseiro pra cima chamando outros cães pra brincar. Algumas vezes ele tem a sorte de fazer amigos, correr mais um tanto e voltar pra casa cansado.
Fico feliz ao vê-lo correr e rolar na grama esfregando as costas de um lado pro outro, com as patas pra cima, ou quando ele encontra o Valentin, um bull terrier que fica parado e apático enquanto ele corre e pula e chama-o pra brincar, ou a Nikki, uma Yakutian Laika que é de uma raça russa de cães originalmente usados pra puxar trenó, mas aqui ela passeia pelas ruas do Jardins solta e sem guia, sem puxar nada. Super amorosa, ela corria e fazia muita festa nos primeiros encontros com Miguilim, na minha rua mesmo. De sair correndo ao vê-lo no final do quarteirão e ficar pulando em cima dele e ele dela. Com o passar do tempo a coisa deu uma esfriada, mas eles continuam brincando e se dando bem.
Como tenho por hábito humanizar meu cachorro no sentido de, encontrar paralelos entre os acontecimentos da vida dele com os da vida de um humano, eu dizia no começo “olha aí sua namorada”. Hoje já vejo a Nikki mais como uma ex do Migui, de um relacionamento que terminou bem. Eles se encontram, ficam felizes de se ver, mas não em êxtase.
Converso com o Miguilim e às vezes acho que ele entende o que eu falo, outras me sinto uma mulher de 35 anos falando com voz infantilóide pro cachorro como se ele entendesse tudo, apenas pelo fato de acompanhar cada palavra que sai da minha boca com olhar atento, mas sabendo que no fundo, ele não está acompanhando nada. Ele está apenas à espera da palavra “Vamos”.
Passear com o Miguilim muitas vezes é um tédio. Eu, que detesto fazer a mesma coisa todos os dias, que sequer consigo tomar o mesmo café da manhã todos os dias, tento fazer pequenas alterações no trajeto da manhã e da noite, pra trazer um ar de novidade, num passeio que no fim é quase sempre o mesmo.
Na maioria das manhãs, saio de casa e viro à direita, fazendo esse percurso que é mais residencial, mas, às vezes, saio de casa e viro à esquerda, fazendo um trajeto mais urbano, passando por lojas, restaurantes e cafés, dos quais sinto o cheiro de comidas sendo feitas; de perfumes meio cítricos que colocam nas lojas de roupas que mudam a vitrine a cada semana (com roupas que eu jamais usaria) e, o que mais me impressiona: sinto o ar frio do ar condicionado saindo pelas portas das lojas.
Aos finais de semana gosto de levar Miguilim em um bosque, hoje não deu, porque saí para duas exposições que eram importantes de ver.
A primeira era de gravura, no Tomie Othake. Fiquei toda animada pra ver, muita gente me falando dela e, pra minha frustração, ela acabou seis dias atrás. Fiquei chateada, mas tudo bem, porque tinha a outra exposição, do Miguel Rio Branco no IMS, baita fotógrafo, e que me interessava ainda mais do que a outra.
O dia estava ensolarado e fazia calor, mas não muito. Ótimo pra andar de bicicleta e agora que comprei meu capacete me sinto mais preparada pra pedalar pela cidade- o que eu sei que no fundo é uma ilusão, porque o perigo segue o mesmo. Mas andando sem capacete eu me sentia livre demais pra São Paulo, ousada demais pra São Paulo, leve demais pro trânsito pesado e cada dia mais agressivo de SP.
Passear com o Miguilim muitas vezes é um perigo. Todos os dias vejo motoqueiros furando sinais, correndo muito além do limite permitido, andando na contra mão, avançando na faixa de pedestres. Já quase fomos atropelados algumas vezes. Sair pra passear com o Miguilim é um perigo. Mas agora eu tenho um capacete. Talvez eu possa usar o capacete durante os passeios com o Miguilim.
O próximo passo ou medida de segurança é comprar uma corrente pra trancar a bike nos postes e nas árvores. Mas, uma coisa de cada vez. (Tenho dificuldade de trancar coisas). Tenho dificuldade de resolver todas as coisas que precisam ser resolvidas.
Uma coisa de cada vez mas todas na minha cabeça sempre.
No caminho para o IMS parei em uma loja que gosto e que não entrava há anos, vi um maiô rosa em promoção, achei o corte ousado, nunca usei nada assim, nunca usaria nada assim, pensei, mas resolvi experimentar. Me olhei no espelho do provador e, pra minha surpresa, me achei bonita, gostei e comprei. E comprei também um biquíni branco que a vendedora me respondeu honestamente que ficaria “transparente” se eu entrasse na água. Ela disse “é, tem gente que não gosta que apareça o mamilo né , então, esse aparece, não vou mentir pra você”. Ao que eu quase respondi com a pergunta “por acaso tem alguém que goste de entrar na água e sair com os pelos pubianos e mamilos à mostra?", mas me contive. O biquini branco seco ficou tão bonito. A outra vendedora falou “ah, usa pra tomar sol e pra tirar foto”. A foto já virou uma atividade. Mas eu não posto fotos de biquíni. Aliás, já postei, mas nada assim “quero mostrar meu corpo com esse biquíni”. Mas olha, esse maio rosa, eu me achei tão linda nele quando vesti na loja, mas quando cheguei em casa e me olhei no espelho descobri que o espelho e luz da loja , como da maioria das lojas, emagrecia. Acho sacanagem isso. Mas eu me gostei no espelho aqui de casa, e me fotografei. Pra lembrar desse dia da minha vida que eu vesti um maio de corte ousado e me gostei por inteira.
Segui pra exposição no IMS com a sacolinha do maiô rosa pendurada no guidão da bicicleta e o capacete na cabeça. E chegando lá descobri que a exposição do Miguel Rio Branco não era no IMS de SP, mas no Rio de Janeiro. Palmas pra mim, que saí de casa pra ir em duas exposições que não existiam. Acabei indo na exposição Xingu: Contatos, que no fim foi importantíssima pra mim.
Voltei pra casa pedalando pela Paulista e depois descendo a Peixoto com os freios bem apertados, porque, ladeiras íngremes assim, me dão pavor (por causa dos carros que atravessam e das motos). Entro em casa, coloco a coleira no Miguilim e levo ele pra passear, pelo caminho que viro à direita ao sair de casa.
Subindo a rua está o Pablo, esse menino de uns 9 anos que vende coisas pelo bairro e com quem eu cruzo, de tempos em tempos. Pablo está sempre gesticulando no ar, cantando, falando sozinho, de um jeito que me toca. Ele trabalha na rua e vive no mundo da imaginação de uma criança. Ingênuo. Simpático. Risonho. A primeira vez que encontrei o Pablo, ele tinha uns 6 anos e o cabelo pintado de loiro e andava com uma caixinha com paninhos de prato pela Avenida Europa. Perto de onde morreu atropelada por uma moto, a grande artista Rochelli Costi, ontem, aos 61 anos. Saindo de sua exposição no MIS, "Arte é Bom – a exposição onde tudo pode". (200 metros distante de onde morreu Marcelo Fromer, em 2001.)
Pablo anda sozinho, sempre (que o vejo). Nunca esqueci o nome dele. Nem a carinha. Mas fazia um bom tempo que não via esse menino que me respondeu que morava "bem pra lá", gesticulado no ar na direção de sua casa. Há três anos ele não sabia me dizer onde morava, ontem ele me disse: "-Continuo morando lá, em Guaianases".
Essa semana vi o Pablo três vezes, sempre com sua caixinha, de panos de prato. Um garoto adorável, de fala boa, educado. Sozinho. De dia e de noite. Correndo perigo, pelas ruas do Jardins.
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